Professor e nutricionista Fabricio Ritt comenta limites, riscos e o futuro da inteligência artificial no setor
Ferramentas como ChatGPT, Gemini e Claude viraram atalho para quem busca respostas rápidas sobre saúde e alimentação. Não é raro encontrar pacientes que perguntam à inteligência artificial quantas calorias devem comer no dia. Outros pedem para o algoritmo montar um cardápio completo em segundos, sem qualquer consulta prévia. Diante desse cenário, cresce uma dúvida entre profissionais, estudantes e pacientes. Afinal, a inteligência artificial é capaz de substituir o nutricionista?
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Pensando nisso, o blog do Nutri In Rio ouviu o nutricionista e professor Fabricio Ritt e a estudante de nutrição Lorena Tassara, do 7° período. Os dois avaliam até onde ferramentas como ChatGPT e outras inteligências artificiais conseguem chegar na prática clínica. E mostram onde o limite da tecnologia esbarra no cuidado humano.
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Entre algoritmos e escuta humana, o debate sobre o futuro da profissão ganha força
O uso da inteligência artificial na saúde cresce em ritmo acelerado. Na nutrição, o cenário não é diferente. Ferramentas de IA já ajudam a calcular macronutrientes, organizar cardápios e agilizar o atendimento clínico. Mas até onde essa tecnologia pode ir? Veja a seguir a opinião de quem vive a prática clínica e de quem se prepara para entrar no mercado.
Inteligência Artificial: entenda se a ferramenta é uma ameaça para o profissional da nutrição
Diante do cenário tecnológico atual, é comum vermos pessoas que utilizam esses softwares para montar dietas, mas a pauta se concentra na maneira que esse recurso deve ser usado pelo profissional. A seguir, confira os tópicos que vamos abordar ao longo da matéria.
- IA é ferramenta, não ameaça ao nutricionista
- Os riscos de seguir dieta feita por IA sem supervisão
- Por que a responsabilidade do plano alimentar nunca é do algoritmo
- Se você é bom no que faz, você se torna insubstituível
- O que a IA ainda não consegue fazer que o nutricionista faz
- Nutrição vai além da dieta, é apoio emocional
IA é apenas ferramenta para o profissional?
O nutricionista e professor Fabricio Ritt é direto sobre o tema. “Vejo a IA como uma ferramenta de potencialização e não uma ameaça”, afirma. Para ele, a tecnologia automatiza processos burocráticos. Ela otimiza o cálculo de macronutrientes. Além disso, agiliza a análise de dados no dia a dia do consultório.
Ritt reforça que a nutrição vai muito além de equações matemáticas. O trabalho exige leitura da rotina do paciente. Exige escuta ativa e observação da adesão ao treino. Nenhum algoritmo reproduz empatia. Por isso, o profissional deve aprender a usar a inteligência artificial a seu favor, não temê-la.
Para ele, a tecnologia libera tempo do nutricionista para o que realmente importa. “A tecnologia potencializa o trabalho do profissional para que eu foque no que realmente importa, o cuidado humanizado”, resume Ritt. Essa frase define a relação entre IA e nutrição na prática clínica hoje.

Os riscos de seguir dieta feita por IA sem supervisão
Questionado sobre o tema, Ritt alerta para os riscos de seguir dieta gerada por inteligência artificial sem acompanhamento profissional. O primeiro é a falha na individualização real. “A IA não identifica e não faz cruzamentos com precisão de sinais clínicos sutis, histórico de exames laboratoriais detalhados, restrições e preferências reais do paciente”, explica.
O segundo risco é o planejamento desalinhado com o treino. Para quem busca desempenho e mudança de composição corporal, a relação entre calorias e volume de exercício precisa ser exata. Sem esse ajuste, o paciente perde massa magra. Sente fadiga excessiva. Estagna resultados mesmo seguindo a dieta à risca.
O terceiro risco, segundo o especialista, envolve a saúde de forma direta. Dietas restritivas sem supervisão podem causar carências nutricionais. Podem também desencadear compulsão alimentar. Em quadros de diabetes e hipertensão, o perigo aumenta, já que exigem decisões clínicas que fogem do alcance desses softwares,

Por que a responsabilidade do plano alimentar nunca é do algoritmo?
O uso da inteligência artificial na nutrição exige cuidados éticos claros. O profissional destaca o sigilo dos dados do paciente. Exames e anamneses são informações sensíveis. Não devem circular em plataformas públicas. Omitir o nome do paciente é medida básica de proteção.
Outro cuidado é a validação científica de cada resposta gerada. “É fundamental que o nutricionista revise e valide todas as prescrições com base em evidências e de acordo com a especificidade de cada paciente”, diz o docente. Nenhuma resposta de IA deve ser tratada como verdade absoluta.
Ainda, existe a responsabilidade técnica do profissional. “O plano alimentar é uma prescrição de saúde. A responsabilidade ética e legal pelo plano assinado é sempre do profissional registrado no conselho, jamais do algoritmo”, afirma. Essa distinção é central no debate sobre IA na nutrição.
A IA vai substituir a profissão do nutricionista?
Saindo do campo profissional e embarcando na área acadêmica, a estudante de nutrição Lorena Tassara, que cursa o 7° período na Estácio de Sá, também reconhece os benefícios da ferramenta. Para ela, a IA consegue realizar cálculos como gasto calórico com rapidez. Mas isso não ameaça a profissão. “Se você for realmente bom no que faz, você acaba se tornando insubstituível”, declarou a aluna. Lorena reforça que o ser humano tem algo que a máquina não replica.
“O ser humano consegue passar credibilidade na fala, consegue ter o carinho e admiração pelos pacientes, coisa que a IA não possui”, diz. Para ela, a tecnologia serve como apoio e não como substituto do nutricionista.
Essa visão reflete uma tendência entre os novos profissionais da área. Em vez de temer a inteligência artificial, estudantes, como Lorena, já aprendem a usá-la na rotina de estudos. Com isso, a IA vira aliada, não ameaça.

O que a IA ainda não consegue fazer que o nutricionista faz
Lorena Tassara compara a inteligência artificial a outra tecnologia já comum na nutrição, a bioimpedância. “A bioimpedância é uma máquina que calcula a composição corporal, é rápida e quase precisa. A inteligência artificial é a mesma coisa, muito boa e prática, mas nem sempre acerta tudo ou dá as respostas adequadas para cada situação”, explica.
O novo Código de Ética do Conselho Federal de Nutricionistas (CFN) estabelece diretrizes claras sobre o tema. A IA é reconhecida como ferramenta de apoio. Ela não substitui o julgamento clínico do profissional. O uso é permitido em tarefas como cálculos nutricionais e elaboração de planos alimentares. Por outro lado, permanece proibida a divulgação de resultados de pacientes por meio de IA, incluindo dados de composição corporal e exames.
Também é vedado o uso da tecnologia para fins de marketing enganoso. O raciocínio clínico continua sendo responsabilidade exclusiva do nutricionista. A norma reforça que a IA deve ser utilizada com supervisão humana e revisão crítica constante. Para instituições de ensino superior, a mudança traz um novo desafio: formar profissionais capacitados para atuar de forma ética e estratégica nesse cenário tecnológico.
Por isso, segundo ela, é preciso repetir o comando várias vezes até obter uma resposta útil. O cérebro humano segue outro caminho. “A nossa cabeça está sempre em aprendizado, não é como um computador que tem que processar dados e pode ficar com o armazenamento cheio”.
“O ser humano é capaz de perceber pelo toque, pelo olhar e por meio das palavras o que o outro quer dizer. Os professores deixam isso muito claro durante as aulas. Eu vejo que, mesmo com o avanço desses recursos tecnológicos, jamais vamos perder a sensibilidade de ouvir e estar perto de outro ser humano. A nossa área segue o mesmo princípio.”, complementa.
Com informações de Conselho Federal de Nutrição
Os conteúdos do Blog Nutri In Rio têm caráter informativo e visam promover o diálogo entre ciência, saúde e bem-estar. As informações aqui apresentadas refletem tendências, pesquisas e práticas reconhecidas no campo da saúde integrativa, sem substituir orientações profissionais ou recomendações clínicas.



