Endocrinologista ouvido pelo blog do Nutri In Rio explica quais hábitos têm respaldo científico e explica os principais mitos que envolvem promessas de suplementos e protocolos milagrosos de resultado rápido
Aumentar a testosterona naturalmente virou um dos assuntos mais buscados por homens preocupados com energia, libido, disposição e ganho de massa muscular. Nas redes sociais, vídeos, suplementos e protocolos ditos naturais prometem elevar os níveis hormonais, com fórmulas milagrosas e receitas prontas. Grande parte dessas promessas não tem respaldo científico consistente e algumas, quando aplicadas sem orientação, podem até prejudicar a saúde hormonal, metabólica e reprodutiva a longo prazo.
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Com isso em mente, o blog do Nutri In Rio conversou com Rodrigo Mendes, endocrinologista e docente da Afya Unigranrio, da Barra da Tijuca, para separar o que a ciência realmente comprova do que é apenas mito quando o assunto é testosterona. Ele explica quais hábitos têm respaldo científico consistente, qual o peso real da alimentação, do sono e do exercício físico, quais suplementos funcionam de fato e quais sinais indicam a necessidade de avaliação médica especializada. Confira a entrevista completa!
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É possível aumentar os níveis de testosterona?
A testosterona baixa deixou de ser tema restrito ao consultório e passou a dominar debates nas redes sociais. Antes de recorrer a qualquer suplemento ou protocolo, é preciso entender o que a evidência científica sustenta. A seguir, o endocrinologista detalha hábitos, mitos e sinais de alerta sobre o tema.Confira os tópicos que vamos abordar ao longo da matéria,
- Existe forma natural de aumentar a testosterona?
- Como a alimentação e o peso corporal afetam a testosterona
- Sono ruim reduz a testosterona? Entenda a relação
- Exercício físico aumenta a testosterona naturalmente?
- Suplementos para aumentar testosterona funcionam? O que diz a ciência
- Sintomas de testosterona baixa: quando procurar um médico
- Erros comuns ao tentar aumentar a testosterona sozinho
1. Existe forma natural de aumentar a testosterona?
Não existe alimento, suplemento ou protocolo natural capaz de elevar a testosterona de forma rápida, previsível e clinicamente relevante em todos os homens. O que a ciência comprova são medidas capazes de corrigir fatores que reduzem a produção hormonal. Entre elas estão a queda do excesso de gordura visceral, a prática regular de exercícios, o sono adequado, o tratamento da apneia obstrutiva do sono e o controle de doenças metabólicas ou crônicas associadas ao quadro clínico do paciente.
Em homens com obesidade, a testosterona total pode estar reduzida por alterações metabólicas e pela diminuição da SHBG, proteína responsável por transportar os hormônios sexuais no sangue. Uma perda de peso clinicamente significativa pode aumentar a testosterona e, em alguns casos, reverter um quadro de hipogonadismo funcional relacionado à obesidade. Quanto maior e mais sustentada a perda de peso, maior tende a ser a recuperação hormonal observada.
“O objetivo não deve ser aumentar a testosterona a qualquer custo, mas identificar e tratar aquilo que está comprometendo a saúde hormonal. Existem causas testiculares, hipofisárias, genéticas, medicamentosas e sistêmicas que exigem investigação específica e não se resolvem apenas com mudança de hábitos”, explica o endocrinologista Rodrigo Mendes.
2. Como a alimentação e o peso corporal afetam a testosterona
Não existe uma dieta específica que funcione como estimulante hormonal isolado. Na maioria dos homens com obesidade e redução funcional da testosterona, o principal benefício da alimentação vem da queda do excesso de gordura corporal e da melhora metabólica geral, não de um nutriente ou alimento em particular consumido isoladamente na rotina alimentar do paciente.
“A evidência mais consistente não é de um alimento isolado, mas de uma estratégia alimentar sustentável, associada à redução de peso quando indicada e ao controle do diabetes, da resistência à insulina e de outras condições metabólicas que impactam diretamente a produção hormonal”, afirma o especialista.
Uma alimentação adequada deve fornecer energia, proteínas, gorduras, vitaminas e minerais em quantidades suficientes para o organismo funcionar bem. Dietas extremamente restritivas, desnutrição, perda de peso rápida demais e baixa disponibilidade energética podem ter efeito contrário e prejudicar diretamente o eixo hormonal masculino, reduzindo ainda mais a testosterona circulante no organismo.
3. Sono ruim reduz a testosterona? Entenda a relação
A produção de testosterona está diretamente relacionada ao ciclo do sono. Estudos experimentais demonstram que a restrição importante do tempo de sono pode reduzir as concentrações hormonais, embora os efeitos variem conforme a duração da privação, a intensidade e as características individuais de cada homem avaliado nas pesquisas científicas.
Além da quantidade de horas dormidas, é necessário avaliar a qualidade do sono. Ronco intenso, pausas respiratórias, sonolência durante o dia e sono não reparador podem sugerir apneia obstrutiva do sono, condição frequentemente associada à obesidade, à disfunção sexual e a alterações hormonais relevantes que merecem investigação médica adequada e acompanhamento especializado contínuo.
“Dormir adequadamente não funciona como um booster, mas evita que a privação de sono e os distúrbios respiratórios contribuem negativamente para a saúde metabólica, sexual e hormonal. Tratar a apneia, quando presente, costuma trazer ganhos hormonais mais consistentes do que qualquer suplemento”, argumenta o especialista.
4. Exercício físico aumenta a testosterona naturalmente?
O exercício é fundamental para a saúde, a composição corporal, a capacidade cardiovascular, a preservação muscular, a função sexual e o controle metabólico. Entretanto, é importante distinguir a elevação hormonal transitória que ocorre logo após uma sessão de treino de um aumento sustentado da testosterona basal medida em jejum.
“O exercício deve ser recomendado pelos seus amplos benefícios, e não vendido como uma forma rápida de aumentar testosterona. Ele é parte de um conjunto de hábitos, não uma solução isolada para quem busca elevar os níveis hormonais de forma consistente”, pontua o endocrinologista.

5. Suplementos para aumentar testosterona funcionam?
A maior parte dos produtos comercializados como testosterona e boosters não possui evidência robusta de benefício clínico real. Uma análise de suplementos vendidos com essa finalidade mostrou que a maioria fazia alegações de aumento hormonal, mas somente uma minoria dos ingredientes apresentava algum dado científico que sustentasse essas promessas de forma consistente e replicável.
Tribulus terrestris, maca peruana, feno-grego, ácido D-aspártico, boro e diferentes extratos vegetais são frequentemente divulgados como capazes de elevar a testosterona. Os resultados, porém, são inconsistentes e não permitem recomendar o uso rotineiro desses compostos para tratar deficiência hormonal comprovada em exames laboratoriais especializados.
“Para o Tribulus, por exemplo, estudos não demonstram de forma consistente aumento da testosterona, da massa muscular ou do desempenho em homens saudáveis. A ashwagandha e alguns fitoterápicos têm resultados positivos em estudos pequenos, mas isso ainda não é evidência sólida de eficácia”, explica Mendes.
Nenhum alimento isolado, como ovo, alho, gengibre, abacate ou oleaginosas, demonstrou funcionar como tratamento para baixa testosterona. Esses alimentos fazem parte de uma alimentação saudável, mas atribuir a eles um efeito hormonal específico é uma simplificação sem respaldo clínico suficiente até o momento atual.
6. Sintomas de testosterona baixa
Os sintomas mais sugestivos de deficiência de testosterona incluem redução persistente do desejo sexual, diminuição das ereções espontâneas ou matinais, disfunção erétil, infertilidade, redução de pelos corporais, diminuição do volume testicular, perda de massa e força muscular e redução da densidade mineral óssea, entre outros sinais clínicos.
Cansaço, desânimo, alterações de humor, dificuldade de concentração, aumento da gordura abdominal e piora do desempenho físico também podem ocorrer, mas são sintomas pouco específicos. Podem estar relacionados à depressão, ansiedade, privação de sono, apneia do sono, obesidade, diabetes, hipotireoidismo e anemia, entre outras condições clínicas comuns.
“O diagnóstico de hipogonadismo não deve ser baseado apenas nos sintomas nem em um único exame laboratorial. As diretrizes recomendam pelo menos duas coletas em manhãs diferentes, em jejum e fora de períodos de doença aguda, além da avaliação de SHBG, LH, FSH e prolactina em alguns casos”, destaca o endocrinologista.
Vale lembrar que a avaliação médica é recomendada quando houver sintomas persistentes, alteração em exame laboratorial, infertilidade, redução importante da libido, disfunção erétil, perda inexplicada de força muscular, fraturas por fragilidade ou osteoporose de causa não esclarecida, entre outras alterações testiculares relevantes.
7. Erros comuns ao tentar aumentar a testosterona sem orientação médica
O primeiro erro é tratar qualquer cansaço, redução de disposição ou dificuldade para ganhar massa muscular como testosterona baixa sem investigação adequada. Esses sintomas são comuns e possuem inúmeras causas possíveis, muitas vezes sem relação direta com os níveis hormonais reais do paciente.
“É preocupante o uso de testosterona, anabolizantes, pró-hormônios ou moduladores hormonais sem indicação médica. A administração externa pode inibir a produção testicular e comprometer a fertilidade. A recomendação das diretrizes é não iniciar testosterona em homens que planejam ter filhos em curto prazo”, alerta o médico.
O segundo erro é interpretar um exame isolado, coletado em horário inadequado ou durante uma doença aguda, como diagnóstico definitivo. A testosterona varia ao longo do dia e pode ser temporariamente reduzida por privação de sono, doenças, déficit calórico intenso e uso de alguns medicamentos comuns no dia a dia.
“A orientação mais segura é não perseguir um número isolado, evitar protocolos com promessa de aumento rápido, cuidar do sono, da alimentação, do exercício e do peso corporal, tratar obesidade e doenças associadas e confirmar qualquer suspeita com avaliação clínica e exames feitos corretamente”, conclui o endocrinologista.
Com informações de Precision Nutrition



