“O foco não é curar, pois não é doença”, diz especialista sobre autismo e alimentação

Nutricionista explica por que a abordagem nutricional no TEA precisa ser individualizada e o que a ciência mais recente reforça sobre o tema

Abril é o mês de conscientização do autismo. É também o momento em que o debate sobre o Transtorno do Espectro Autista ganha mais visibilidade. Nas redes sociais, nas famílias e, cada vez mais, dentro dos consultórios de nutrição. Isso porque a relação entre autismo e alimentação é um dos campos mais complexos e mal compreendidos na prática clínica. A seletividade alimentar, frequentemente associada ao TEA, ainda é tratada por muitos profissionais de forma superficial, focada no que a criança come, e não no porquê ela não consegue comer.

Para aprofundar esse debate, o blog do Nutri In Rio conversou com Luciana Carvalho Dias, nutricionista especializada em nutrição infantil, TEA, Trissomia 21 e TDAH, e palestrante confirmada na terceira edição do principal evento de nutrição do Rio de Janeiro. A seguir, ela explica o que a ciência diz e o que ainda precisa mudar na abordagem dos profissionais. Confira! 

💚 Falta menos de um mês para o principal evento de nutrição do Rio de Janeiro

Autismo e alimentação: o que os profissionais de saúde ainda erram 

Entender o autismo é o primeiro passo para cuidar bem. Veja os temas que vamos abordar nesta matéria: 

  • Autismo é doença?
  • O erro mais comum das famílias na alimentação de pessoas autistas
  • O que os profissionais de saúde precisam mudar
  • O que a ciência mais recente diz sobre nutrição e TEA
  • Nutri In Rio: onde esse debate acontece na prática

Autismo é doença? 

Antes de falar em alimentação, é preciso acertar o enquadramento. E esse ponto, aparentemente básico, ainda gera confusão, inclusive entre profissionais de saúde, como explica Luciana Carvalho. 

“O autismo não é uma doença. Ele é classificado, tanto pelo DSM-5 quanto pela CID-11, como um transtorno do neurodesenvolvimento. Isso significa que estamos falando de uma forma diferente de desenvolvimento cerebral, que impacta principalmente a comunicação, o comportamento e o processamento sensorial. Essa distinção é muito importante, porque muda completamente a forma como a gente cuida. Quando pensamos em doença, pensamos em cura. No autismo, o foco não é ‘curar’, mas sim compreender aquele funcionamento, reduzir dificuldades e potencializar habilidades, sempre com o objetivo de melhorar qualidade de vida”, explica Luciana Carvalho Dias. 

Essa base conceitual é o ponto de partida para qualquer intervenção nutricional no TEA que pretenda ser, de fato, efetiva.

Fita com estampa colorida de quebra-cabeça, símbolo de conscientização do autismo, sobre um fundo vermelho texturizado.
Antes de falar de alimentação, é preciso acertar o enquadramento  — Reprodução: redes sociais

O erro mais comum das famílias na alimentação de pessoas autistas

Famílias bem-intencionadas também cometem erros. E no contexto da alimentação no autismo, um padrão se repete com frequência nos consultórios.

“Na prática clínica, existe um erro muito comum que vejo em famílias extremamente dedicadas, que estão tentando fazer o melhor pelos seus filhos: a pressão para que a criança coma. Isso pode aparecer de várias formas — insistência constante, barganhas, punições ou até tentativas repetidas de ‘forçar’ a experimentar alimentos novos. O problema é que, no autismo, a recusa alimentar não costuma ser simplesmente uma questão de comportamento ou escolha. Existe, na maioria das vezes, uma base sensorial muito importante. Textura, cheiro, temperatura e até o som do alimento podem gerar desconforto real. A literatura mostra que, quando a gente aumenta a pressão, aumenta também a ansiedade em torno da refeição. E isso tende a piorar a seletividade alimentar, não melhorar. Ou seja, a intenção da família é ajudar, mas o efeito pode ser justamente o oposto, criando uma relação mais difícil com a comida ao longo do tempo”, alerta a especialista.

Reconhecer esse padrão é essencial não só para as famílias, mas para os profissionais que as orientam.

Pequenas mãos de madeira pintadas nas cores azul, amarelo e vermelho em pé contra um fundo azul claro.
Mesmo com boa intenção, famílias frequentemente caem em erros recorrentes quando o assunto é alimentação no autismo
— Reprodução: redes sociais

O que os profissionais de saúde precisam mudar (e por que ainda não mudaram) 

A crítica de Luciana vai além das famílias. Ela aponta uma lacuna estrutural na forma como os profissionais de saúde ainda abordam o tema.

“Se eu pudesse mudar uma única coisa na forma como profissionais de saúde abordam o autismo e a alimentação, seria o foco da avaliação. Ainda hoje, muitos profissionais olham prioritariamente para o que a criança come — quantidade, variedade, nutrientes — e menos para o porquê aquela criança não consegue comer. E essa é uma mudança fundamental. A seletividade alimentar no autismo é multifatorial. Ela pode envolver questões sensoriais, dificuldades motoras orais, experiências negativas prévias, alterações gastrointestinais e rigidez comportamental. Quando a intervenção não considera esses fatores, ela tende a ser pouco efetiva”, explica a nutricionista.

E por que essa mudança ainda não aconteceu por completo? “Em parte, porque a formação tradicional em saúde ainda é muito centrada em nutrientes e prescrição, e menos em comportamento alimentar e integração sensorial. Além disso, ainda existe pouca integração real entre as áreas — nutrição, fonoaudiologia e terapia ocupacional — que são essenciais nesse contexto. Soma-se a isso a expectativa por soluções rápidas, tanto por parte dos profissionais quanto das famílias, o que acaba favorecendo abordagens mais simplistas”, complementa Luciana.

Manequim articulado de madeira com postura curvada e desanimada em frente a um quadro-negro cheio de rabiscos confusos de giz.
Segundo a especialista, é necessário observar menos no que a criança come e mais no porquê ela não consegue comer — Reprodução: redes sociais


O que a ciência mais recente diz sobre nutrição e TEA

O avanço da pesquisa na área já aponta caminhos mais sólidos — mas exige uma postura profissional diferente do modelo tradicional.

“Hoje, o que a ciência mais recente reforça é que o cuidado nutricional no autismo precisa ser individualizado e integrado. Não se trata apenas de montar uma dieta, mas de entender aquela criança de forma ampla. Quando isso acontece, a alimentação deixa de ser um campo de conflito e passa a ser um espaço possível de construção”, conclui a especialista.

Para nutricionistas e demais profissionais da saúde, incorporar essa perspectiva é uma questão de atualização — e de responsabilidade clínica.

Nutri In Rio está chegando no Riocentro em maio

O Nutri In Rio é o principal evento de nutrição do Rio de Janeiro, realizado pelo Grupo Open Brasil. Em sua terceira edição, o congresso reúne profissionais, pesquisadores, estudantes e marcas do setor em uma programação focada em atualização científica, prática clínica e inovação.

Luciana Carvalho Dias é uma das palestrantes confirmadas e estará presente para aprofundar temas como nutrição no TEA — com base em evidências e aplicação clínica direta.

O evento acontece entre os dias 16 a 18 de maio, no Riocentro, no Rio de Janeiro. As inscrições são limitadas. Garanta sua participação aqui!


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