Não é só reduzir 500 kcal por dia! Nutricionista explica o método certo para calcular as calorias do seu paciente 

Especialista explica por que o cálculo energético precisa ir além das fórmulas e exige leitura clínica constante

Saber como calcular calorias é uma das bases da nutrição clínica. Mas a prática mostra que aplicar fórmulas não é suficiente. O cálculo calórico na nutrição é um ponto de partida. A resposta do paciente é o que valida a estratégia.

Equações como Harris-Benedict e Mifflin-St Jeor ajudam a estimar o gasto energético total. No entanto, a necessidade calórica real só se confirma com acompanhamento. A prática clínica exige análise contínua, ajustes e interpretação dos sinais do corpo.

Conversamos com uma das curadoras científicas do Nutri In Rio, Dra. Patrícia Rito nutricionista especialista em Nutrição Clínica, Nefrologia, Esportiva e Fitoterapia, para entender a abordagem correta na hora de fazer um déficit ou superávit calórico. Confira!  

Confira os tópicos que vamos abordar ao longo da matéria: 

  • O erro no cálculo calórico que compromete seus resultados clínicos
  • Por que dois pacientes com o mesmo IMC nunca deveriam receber a mesma prescrição calórica
  • O mito das 500 kcal: por que o déficit padrão pode estar sabotando seu paciente
  • Cálculo de macros ou corte de calorias? O que realmente funciona na prática clínica
  • O que deveria mudar no ensino sobre como calcular calorias na formação do nutricionista
Close-up lateral de um profissional de saúde usando uma fita métrica rosa para medir a cintura de uma pessoa que veste uma camiseta amarela e calça jeans. A imagem foca no monitoramento de medidas corporais em um ambiente clínico.
Entrevistamos a Dra. Patrícia Rito sobre como aplicar corretamente déficit ou superávit calórico na prática nutricional — Reprodução: redes sociais


O erro no cálculo calórico que compromete seus resultados clínicos

Na prática clínica, o cálculo calórico pode parecer adequado no papel e ainda assim não gerar a resposta esperada. A primeira evidência costuma surgir na incompatibilidade entre a prescrição e o resultado obtido. Quando o paciente segue o plano e o peso não evolui conforme previsto, é necessário reavaliar a estratégia energética adotada.

Antes mesmo da balança, o corpo costuma emitir sinais. Fome persistente, irritabilidade, queda de rendimento e cansaço excessivo indicam que a ingestão pode estar desalinhada com a real necessidade calórica. 

“O primeiro e mais confiável sinal é: mudança de peso incompatível com a prescrição calórica. Como sinal clínico-chave, após 7 a 14 dias, observo perda de peso muito lenta ou nula quando o plano é seguido, ou perda rápida demais, acima de 1% do peso por semana na maioria dos casos, sugerindo risco de perda de massa magra”, destaca a nutricionista.

Uma profissional de jaleco branco analisa um documento impresso junto a um grupo de mulheres em um ambiente iluminado. Elas estão cercadas por cestas de vime repletas de vegetais frescos, como brócolis e pimentões. O clima é de orientação e trabalho em equipe focado em nutrição.
Antes da balança, o próprio corpo denuncia o desalinhamento calórico por meio de fome constante, irritação e queda de desempenho — Reprodução: redes sociais

Por que dois pacientes com o mesmo IMC nunca deveriam receber a mesma prescrição calórica? 

Equações para estimar gasto energético total são ferramentas importantes. No entanto, elas não substituem a análise clínica detalhada. A necessidade calórica real depende de fatores que vão além do cálculo matemático.

Histórico de peso, experiências anteriores com dietas restritivas e possíveis sinais de adaptação metabólica devem ser considerados. A composição corporal também exerce papel central, já que o percentual de gordura e massa muscular impactam diretamente o metabolismo basal e o cálculo de macros. A curadora do Nutri In Rio destaca quatro etapas importantes desse processo. 

“Eu colocaria em ordem de prioridade clínica: primeiro, histórico de peso e dieta, como o peso evoluiu nos últimos meses ou anos e se já houve dietas muito restritivas antes, pelo risco de adaptação metabólica. Segundo, composição corporal, por bioimpedância e exame físico: percentual de gordura, massa muscular e distribuição de gordura. Isso explica por que dois pacientes com o mesmo IMC precisam de calorias diferentes. Terceiro, rotina e nível real de atividade física. Quarto, sinais clínicos como fome, energia, sono, estresse e ciclo menstrual em mulheres”, explica a especialista.

Cálculo de macros ou corte de calorias? O que realmente funciona na prática clínica

Pequenas alterações costumam ser mais eficazes do que cortes agressivos. Em muitos casos, a redistribuição de macronutrientes produz resposta superior à simples redução energética. O intervalo de reavaliação também precisa respeitar o tempo fisiológico de adaptação.

“Eu uso um método em três etapas. Primeiro, verificar a adesão. Antes de mudar calorias, confirmar se o paciente realmente seguiu o plano, se houve finais de semana fora ou eventos sociais. Segundo, fazer ajuste criterioso, não por achismo. Se não houver resposta esperada, optar por pequeno ajuste calórico, reduzindo 100 a 200 kcal por dia inicialmente, ou ajustar macronutrientes, o que muitas vezes funciona melhor do que cortar calorias. Terceiro, reavaliar em 10 a 14 dias, evitando mudanças semanais impulsivas”, orienta a profissional.

O mito das 500 kcal: por que o déficit padrão pode estar sabotando seu paciente

Na formação acadêmica, o foco recai sobre fórmulas e déficits padronizados. No consultório, a realidade é mais complexa. A resposta metabólica varia de acordo com a composição corporal, histórico alimentar e contexto comportamental.

A prática mostra que o mesmo valor energético pode gerar resultados distintos em pacientes diferentes. O peso isolado não traduz qualidade da perda nem preservação de massa magra. A experiência clínica amplia a interpretação dos dados e reduz o apego rígido às equações.

“Na graduação, aprendemos fórmulas fixas como Harris-Benedict, Mifflin-St Jeor e FAO/OMS, além de déficit padrão de 500 kcal. Na prática, aprendemos que não existem 500 kcal universais. Pacientes respondem de forma diferente ao mesmo número de calorias. O peso não conta a história toda, a composição corporal conta. Na prática, há menos apego à fórmula e mais atenção ao comportamento do corpo do paciente”, ressalta a nutricionista.

Close-up de um profissional de saúde segurando um cartão informativo. O cartão exibe cinco silhuetas humanas coloridas que representam as categorias de IMC (Índice de Massa Corporal), variando do azul (abaixo do peso) ao vermelho escuro (obesidade mórbida), com os respectivos valores numéricos abaixo de cada uma.
O mesmo total de calorias pode levar a resultados diferentes — Reprodução: redes sociais

O que poderia mudar no ensino sobre como calcular calorias na formação do nutricionista

A forma como o cálculo energético é ensinado influencia diretamente a prática futura. A abordagem tradicional prioriza equações fixas e metas numéricas. O cenário clínico atual exige visão dinâmica e acompanhamento contínuo.

Individualização, análise de histórico alimentar e foco em qualidade da dieta precisam ganhar espaço na formação acadêmica. A periodização nutricional também deve ser incorporada como estratégia estruturada, especialmente em contextos esportivos e de recomposição corporal.

“Eu mudaria cinco pontos fundamentais. Primeiro, ensinar estimativa e monitoramento contínuo: em vez de ‘calcule e siga’, ensinar ‘calcule, observe e ajuste’. Segundo, priorizar a composição corporal antes do peso: a meta não é só perder peso, é perder gordura e preservar músculo. Terceiro, individualizar mais a partir do histórico de dietas: quem já fez restrição crônica precisa de abordagem mais cautelosa. Quarto, menos foco em calorias e mais foco em qualidade alimentar: muitas vezes, melhorar a qualidade da dieta já muda o metabolismo. Quinto, ensinar periodização nutricional desde a graduação, alternando fases de déficit, manutenção e até leve superávit em atletas”, conclui a nutricionista.

Referências bibliográficas: 

Hall et al., 2012  – mostram que respostas individuais ao mesmo déficit calórico variam muito entre pessoas. 

Müller et al., 2012 – reforçam a importância do monitoramento contínuo e ajustes dinâmicos.

Heymsfield et al., 2018 – importância da composição corporal na prescrição nutricional.

Melanson et al., 2015 – variabilidade do gasto energético entre indivíduos.

Thomas et al., 2022 – consenso sobre periodização nutricional e ajustes graduais.

Trexler et al., 2014 – manejo de déficit calórico e preservação de massa magra.

Hall et al., 2016 – adaptação metabólica na perda de peso.

Dulloo et al., 2012 – redução do gasto energético em dietas restritivas.

Thomas et al., 2022 – revisão sobre periodização nutricional.

Schoenfeld & Aragon, 2020 – proteína, composição corporal e gasto energético.

Os conteúdos do Blog Nutri In Rio têm caráter informativo e visam promover o diálogo entre ciência, saúde e bem-estar. As informações aqui apresentadas refletem tendências, pesquisas e práticas reconhecidas no campo da saúde integrativa, sem substituir orientações profissionais ou recomendações clínicas.


Outras Notícias

Um grupo alegre de foliões celebra o Carnaval em frente a uma fachada azul vibrante com janelas brancas de estilo colonial. No centro, uma mulher negra sorridente segura uma pequena sombrinha de frevo colorida, vestindo um top amarelo e shorts laranja com adereços brilhantes. À direita, um homem usa uma peruca afro amarela, óculos azuis gigantes e gravata borboleta colorida. O grupo se diverte com serpentinas e fantasias criativas, capturando a energia vibrante de um bloco de rua.

Entenda os principais cuidados para curtir o Carnaval sem deixar de lado uma boa alimentação e hidratação 

Confira guia prático para nutricionistas orientarem seus pacientes durante a folia  O Carnaval 2026 já é uma realidade para muitos ...
ista superior de uma consulta nutricional. Uma profissional de jaleco aponta com uma caneta para uma tabela de alimentos ilustrada em uma prancheta. Sobre a mesa, há uma cesta com frutas frescas (kiwi, maçã e laranja), uma fita métrica e um copo d'água.

Não é só reduzir 500 kcal por dia! Nutricionista explica o método certo para calcular as calorias do seu paciente 

Especialista explica por que o cálculo energético precisa ir além das fórmulas e exige leitura clínica constante Saber como calcular ...
médico estudando de maneira atenta

Nutrição ou Nutrologia: qual área devo seguir? 

A diferença entre nutrição e nutrologia começa na formação profissional. A nutrição é uma área da saúde exercida pelo nutricionista ...
Fotografia em primeira pessoa mostrando uma mão oferecendo uma garrafa de cerveja de vidro. Ao fundo, um homem sentado em um sofá branco faz um gesto de "pare" com a mão aberta, recusando a bebida. O homem está levemente fora de foco, dando ênfase ao gesto de negação.

Janeiro Seco: como esse movimento pode ajudar o trabalho do nutricionista?

Campanha sugere fazer um detox no primeiro mês do ano; descubra como o profissional da nutrição pode usar isso a ...